A
Fundação
Em 29 de janeiro de J921, um grupo de homens de negócios e profissionais
liberais fundou, na cidade do Rio de Janeiro, o que
pretendia que fosse o primeiro Rotary Club do Brasil. Rotary International,
entretanto, ao receber o pedido de filiação do novo clube
e verificando a predominância de nacionais de outros países
entre aqueles dezessete membros fundadores, desaprovou a sua constituição
e sugeriu que viessem a ser convidados mais brasileiros.
Os signatários daquela primeira ata logo se dispersaram e, somente
em 15 de dezembro de 1922, quase dois anos depois, veio o Rotary Club do
Rio de Janeiro a ser, efetivamente, criado, mediante notável trabalho
realizado por Heriberto Percival Coates, então membro do Rotary Club
de Montevidéu e representante do Rotary International para a fundação
do primeiro clube em país de língua portuguesa. Dentre os
seus fundadores, apenas Herbert Moses havia assinado a ata de 29 de janeiro
de 1921: Richard P. Momsen, ausente
do país, somente ingressou no clube onze meses mais tarde.
Cumpre destacar a atuação de Robert Shalders, secretário
geral do clube durante os cinco primeiros anos. Shalders, por seu entusiasmo
e persistência, foi, certamente, o grande responsável pela
consolidação da nova unidade rotária e o seu grande
arquiteto.
A
Década de Vinte
Como
disse Alberto Amarante em seu precioso livro Contribuição
à História do Rotary no Brasil, editado em 1973 ao ensejo
do aniversário de cinquenta anos do Rotary Club do Rio de Janeiro,
pouco se sabe das atividades do clube durante os dois anos iniciais de sua
vida, pois os seus anais somente começaram a ser escritos em 14 de
novembro de 1924, com a publicação do primeiro boletim de
suas reuniões, na época chamado Notícias Rolarias.
A partir de então e até hoje, as atas dos trabalhos do clube
vêm registrando, cuidadosamente,
os fatos mais notáveis ocorridos em nossa cidade e no próprio
país. A constatação de haver o clube preservado esse
acervo já evidencia um relevante serviço prestado à
cultura brasileira, pois os acontecimentos ali relatados, muitos dos quais
não perpetuados alhures, demonstram que os primeiros rotarianos,
e os que os seguiram, além de vivenciarem episódios históricos
importantes, sobre eles exerceram, algumas vezes, fundamental influência,
estimulando-os, motivando-os e, até mesmo, provocando-os.
Na verdade, o Clube do Rio foi criado em época de grandes transformações.
Na velha Europa, o espetro da guerra parecia estar definitivamente afastado
e os estadistas, debruçados sobre as mesas de negociações,
teciam acordos e tratados, com os quais acreditavam assegurar a paz por
que ansiava uma humanidade tão sofrida.
Erasmo Braga, em nosso clube, acompanhava de perto todas essas tratativas,
apoiando-as ou criticando-as, mantendo os seus companheiros sempre bem informados.
O ano de 1922, que viu surgir o rotarismo no Brasil, foi particularmente
significativo. Em São Paulo, na Semana de Arte Moderna, os artistas
e intelectuais brasileiros rompiam com os estilos tradicionais, numa demonstração
da maturidade da cultura de vanguarda em nosso país. A preocupação
com a arte, no terreno da música, da pintura, da caricatura, da literatura,
da poesia e do teatro, foi sempre uma constante entre os rotarianos. Todas
as nossas grandes festas, como se verá adiante, foram sempre emolduradas
com representações artísticas dos maiores nomes da
cultura brasileira, como Coelho Netto, Eleazar de Carvalho, Villa-Lobos,
Bensazoni Lages, Stella Leonardos e tantos e tantos outros.
Mas tínhamos também nossos próprios artistas: Lucílio
de Albuquerquer e sua esposa Georgina, cujos quadros acham-se ainda expostos
no Museu de Arte Moderna, como obras características da pintura brasileira
do século XX; Mattos Pimenta, o reformador da cidade; José
Marianno Filho, que cuidava da preservação de nosso patrimônio
histórico, opondo-se a todos que o quisessem ameaçar, inclusive
a Lúcio Costa, que, no seu entender, estava trazendo para o Brasil
uma arquitetura inadequada ao nosso clima; Rodrigo Octavio Filho, o grande
acadêmico e orador; Raul Pederneiras, o mestre da caricatura no Rio
de Janeiro; Bastos Tigre, o poeta, somente para citar os primeiros.
Em nossa cidade, um novo Rio surgia em contraposição ao velho
Rio das epidemias, que, antes, até mesmo, lhe valera o apelido de
"cidade necrópole." A obra de Pereira Passos e de Oswaldo
Cruz havia resultado numa metrópole saneada, com seus jardins, praças
e boulevards clamando para serem exibidos a quem aqui chegasse.
Para tal, um singular evento havia sido concebido, uma grande festa internacional,
destinada a congregar gentes de toda a parte, a pretexto de se celebrar
o aniversário de cem anos do Grito de Ipiranga. E foi certamente
durante a grande Exposição do Centenário, em 1922,
que os rotarianos fundadores, percorrendo encantados os imponentes pavilhões
de cada nação, construídos especialmente na área
que se tornou disponível com o desmonte parcial do morro do Castelo,
encontraram inspiração para convencer empresários e
governo a organizar, anos depois, um novo evento internacional, este já
voltado, então, para- a divulgação de nossos produtos
e de nossa potencialidade econômica. A Eeira de Amostras do Rio de
Janeiro, a primeira que se realizou no Brasil, perseguida que foi pêlos
rotarianos durante alguns anos, insere-se no rol das grandes realizações
do Rotary do Rio de Janeiro em prol do desenvolvimento do Brasil. E quando
a idéia finalmente se concretizou, foi no Pavilhão da Argentina
que se fez realizar, no dia da inauguração, a reunião
semanal do Conselho Diretor de nosso clube.
No campo da política, nesse mesmo ano, era fundado o Partido Comunista
Brasileiro, cuja ideologia, por abrigar a privação da liberdade
e a supremacia do Estado sobre os direitos dos cidadãos, esfacelou-se
antes mesmo do final do século, em decorrência da explosão
do império soviético. E, certamente, as gerações
futuras irão aprender, no grande
livro da História, que o ideal rotário de "Servir, Antes
de Pensar em Si" maiores benefícios vem trazendo para a humanidade
do que as convicções políticas radicais e o fanatismo
religioso, advindos eles da direita ou da esquerda.
A década de vinte foi, também, a época das grandes
aventuras aéreas, em que os heróis alados, "por ares
nunca dantes navegados", ousaram rasgar céus e nuvens, mostrando
aos pobres mortais que, maravilhados, os contemplavam, que o homem se tornara
em um novo pássaro a voar, mas, nas palavras do poeta, num "pássaro
com alma." Gago Coutinho, que naquele mesmo memorável ano de
1922 realizara a primeira travessia aérea sobre o Atlântico
Sul, unindo o Tejo à Guanabara, para glória da brava gente
lusitana, sempre que esteve no Brasil, freqüentou as reuniões
de nosso clube. Seus relatos entusiasmavam a todos e, saciando a sede dos
rotarianos com relação às novas aventuras aéreas,
permitia que se acompanhasse, mais de perto, os reides de Ramon Franco,
Pinedo, Del Prete, Lindenberg e tantos outros. Na década seguinte
iria Gago Coutinho trazer-nos o Dr. Ugo Eckner, que, comandando o Graff
Zeppelin, chegava ao Rio navegando com o sextante inventado por seu amigo
almirante português e, podemos dizer, seu anfitrião em nosso
clube. O interesse pelo dirigível foi tanto, que alguns rotarianos
e jornalistas brasileiros logo se propuseram a viajar pelo mundo naquela
aeronave sem asas, entre eles Anna Amélia de Queiroz Carneiro de
Mendonça, a Rainha dos Estudantes, esposa de nosso companheiro Marco
Carneiro de Mendonça. Mais tarde, ainda com a lembrança viva
das imagens deslumbrantes que, lá dos céus, pôde ver,
escreveu um livro chamado Quatro Pedaços do Planeta no Tempo do Zepelim,
em que divide com quem quer que o leia aquela bela e singular experiência.
O amor pela aviação não durou apenas uns poucos momentos.
Logo os rotarianos perceberam que estavam no limiar de um novo tempo e para
que não se sentissem ultrapassados, logo propõem como sócios
do clube dois grandes aviadores do Brasil: Godofredo Vidal que, poucos anos
antes, participara do histórico reide sobre os Andes, e António
Guedes Muniz, hoje considerado o Patrono da Indústria Aeronáutica
Brasileira. Quantas e quantas reuniões plenárias de nosso
clube foram enriquecidas com palestras sobre aviação.
Mas as atividades dos rotarianos não eram tão somente contemplativas
ou acadêmicas. Muito pelo contrário, pois os grandes problemas
da época, como o das enchentes, do abastecimento de água,
do desenvolvimento da soroterapia no Brasil, da remodelação
da cidade, da preservação de monumentos e edifícios
históricos, da merenda escolar, da higiene nas novas construções
que chamavam de arranha-céus, das favelas, do sufrágio universal
feminino, da necessidade de se usar cheques, etc., eram exaustivamente tratados.
Para isso, personalidades ilustres foram convidadas para expor e discutir
toda essa problemática, tais como Paulo de Frontin, Vital Brasil,
Carlos Chagas, Felix Pacheco, Ataulfo de Paiva, Castão Bahiana, Lindolfo
Collor, Cândido Rondon, Pedro Ernesto, Assis Brasil, Geremário
Dantas, Prado Júnior, estes citados já que nào poderemos
mencionar a todos. Também as grandes questões sobre os direitos
da mulher foram objeto de interesse de nossos programas e, para que se pudesse
tratar dos problemas em toda a sua extensão, ocuparam, também,
a nossa tribuna as senhoras Bertha Lutz, Jerônima Mesquita, Stella
Duval, Mary Dingman, Eugenia Hamann e Anna Amélia.
Houve um assunto, entretanto, que sempre mereceu prioritária atenção
por parte dos rotarianos, qual seja o da educação.
João Kopke, a convite do clube, teceu comentários sobre a
falta de uma literatura brasileira destinada ã infância e à
juventude, já que os livros de Monteiro Lobato e Viriato Correia
somente apareceriam mais tarde. Sensibilizado com os comentários
daquele grande educador e liderado pelo nosso companheiro Edmundo de Miranda
Jordão, e outros, desenvolveu o clube inúmeros projetos na
área da educação. A partir de 1926, e durante sete
anos, vinte e quatro escolas públicas municipais receberam das mãos
dos rotarianos, em comoventes solenidades, bibliotecas completas, com mais
de uma centena de livros, organizados segunda lista sugerida pelo próprio
João Kopke, acondicionados em estantes de madeira de lei doadas também
pêlos rotarianos. Por outro lado, a partir daquela data e por muitos
anos, o Rotary Club do Rio de Janeiro organizou, anualmente, no Teatro Palácio
e, simultaneamente, noutras casas de espetáculos, para abrigar milhares
de crianças carentes de nossa cidade, as chamadas Festas das Cadernetas
Escolares.
Durante esses eventos, entretinha-se a plateia com as jocosas caricaturas
desenhadas, na ocasião, pelo nosso companheiro Raul Pederneiras,
com a exibição de desenhos animados, com a execução
de marchas e dobrados pela Banda de Música do Corpo de Fuzileiros
Navais e com as graças e acrobacias dos clowns do circo Sarrasani.
As senhoras dos rotarianos distribuíam a todos refrigerantes e farta
merenda. Ao final, os alunos que mais se haviam destacado em suas classes
eram chamados e recebiam, uma um, das mãos dos rotarianos, uma Caderneta
da Caixa Económica com a importância depositada de 50$000.
Paul Harris, em 1936, assistindo a uma dessas solenidades, que naquele ano
premiava 227 alunos, dentre os 5000 reunidos em diversos teatros do Rio
de Janeiro, comoveu-se a ponto de não poder conter as lágrimas,
confessando, pouco depois, ter sido aquele dia um dos mais felizes de sua
vida.
Essas solenidades, anos mais tarde, passaram a ser realizadas nas próprias
escolas, já com o nome de Festa do Melhor Companheiro. José
Moutinho Duarte, hoje rotariano do Rotary Club Rio de Janeiro - Ramos, Governador
1983-84, ainda se orgulha da bandeira brasileira com que foi premiado como
o melhor companheiro de sua classe, eleito por seus próprios coleguinhas,
numa dessas ocasiões.
É impossível enumerar todos os projetos desenvolvidos pelo
clube em prol cia educação, mas não podemos deixar
de lembrar a Cruzada contra o Analfabetismo, presidida por Miguel Couto,
por indicação do clube, que logo angariou total apoio da imprensa
e de toda a sociedade. Também as campanhas do Copo de Leite, da Merenda
l^colarç. da Construção da Escola Rotary, esta concretizada
mais tarde para celebrar os 25 anos do rotarismo no Brasil.
No campo da ecologia, ainda quando esta palavra não havia sido incorporada
à língua dos homens, o Rotary Club do Rio de Janeiro encetou
uma grande campanha no sentido de que a área de aterro, compreendida
entre o Hotel Glória e o Calabouço, fosse preservada.
Para felicidade de todos, de ontem e de hoje, o Prefeito Alaor Prata compareceu
a uma de nossas reuniões, em 9 de julho de 1926, para anunciar que,
a despeito das dificuldades financeiras por que passava a prefeitura do
Distrito Federal, toda a área em questão não mais seria
loteada e edificada, mas transformada em jardins. A cidade do Rio de Janeiro
deve pois ao seu primeiro Rotary Club, célula mater do rotarismo
no Brasil, o Largo do Russel, a Praça Paris e todos aqueles jardins
maravilhosos que tanto embelezam nossa cidade.
Outro acontecimento memorável foi a visita que nos fez o EngQ Silva
Costa, em agosto de 1927, para falar sobre a obra que iniciara
e que se constituía no ideal maior de sua vida, qual seja a de dotar
o Pico do Corcovado com um monumento que viesse a ser o símbolo da
cidade, assim como a Torre Eiffel o é de Paris. Confidenciou-nos,
então, que a ideia inicial fora a de erigir uma cruz, uma gigantesca
cruz, que pudesse ser vista por todos, de terra ou do mar. Mas se a cruz
é a imagem perfeita da "simplicidade, da simetria e da espiritualidade,"
precisava ela ter alma e vida, o que exigia que tomasse a preciosa forma
do divino personagem da redenção. E que pudesse envolver a
todos num largo e divinal abraço.
É bom que nos lembremos, ainda, que foi na década de vinte
que o rotarismo de fato se manifestou com toda a sua força em nosso
país, com a fundação de outros clubes. Assim é
que foram criados: o RC de São Paulo (1924); RC de Santos (1927);
o RC de Belo Horizonte (1927); RC de Juiz de Fora (1928); RC de Niterói
(1928); RC de Campos (1928); RC de Porto Alegre (1928); RC de Pelotas (1928);
RC de Rio Grande (1928) e RC de Ribeirão Preto (1929). Este último,
assim como os de Montes Claros (1926) e Friburgo (1930), encerrarai posteriormente
suas atividades, para renascerem mais tarde.
Década de Trinta
Se a década de vinte testemunhou o nascimento cio movimeni rotário
no país e sua caminhada em direção às principais
cidades do sul, na década de trinta, célere, ele se expandiu
para o norte. Iniciando-se com o RC de Recife em 1931, já em 1934
alcançaria Manaus.
Todo esse período foi também de importantes acontecimentos
e grandes realizações, sendo impossível relembrá-los
a todos. Há de se falar, entretanto, no entusiasmo como que os rotarianos
viveram um pan-americanismo intenso, liderados pela figura ímpar
de Juan Albertotti, que, argentino de nascimento, dizia-se do mesmo modo
uruguaio e brasileiro. Todavia as relações entre alguns outros
países sul-americanos não eram, igualmente, estreitas e cordiais
e, por isso, a atuação do Rotary Club do Rio de Janeiro, juntamente
com seus coirmãos do Prata, se fez necessário. Podem os rotarianos
de hoje se orgulhar do esforço magnífico então desenvolvido,
compartilhado,inclusive, pêlos rotarianos dos próprios países
em litígio.
Quando da passagem da década, o Tratado Tacna-Arica, consubstanciando
uma solução arbitrai, já havia sido firmado, pondo
fim a uma disputa de fronteiras entre Chile e Peru, o que foi motivo de
regozijo para os rotarianos do nosso clube. Também foram objeto de
grande alegria a assinatura do Tratado Mangabeira-Ortiz, terminando uma
questão de fronteira, entre a Colômbia e o Brasil, que durou
quase três séculos; e a solução para o incidente
Peru-Bolívia, envolvendo Letícia, para o que foi proveitosa
a interferência do R.C. do Rio de Janeiro.
Outras disputas, entretanto, já se prenunciavam como inevitáveis.
Por essa razão, expediu o nosso clube, através de seu Presidente
Edmundo de Miranda Jordão, em outubro de 1933, uma mensagem a todos
os clubes de Rotary do continente, conclamando a todos que contribuíssem
para a pacificação da família sul-americana. Na oportunidade,
convém recordar que, anteriormente, em 24 de dezembro de 1926, em
nome da fraternidade universal, Oscar Weinschenk, nosso presidente, enviou
mensagem a todos os clubes de Rotary do mundo, num total de 2.700.
Não obstante o desejo de todos, um grave conflito veio a eclodir,
envolvendo o Paraguai e a Bolívia, conhecido como a Guerra do Chaco
Boreal. Nesse episódio, mais uma vez atuou o Rotary Club do Rio de
Janeiro com objetividade e firmeza, colocando-se na posição
de mediador na disputa. As cartas, os apelos, as propostas endereçadas
às partes envolvidas, encaminhados através das unidades rolarias
dos diversos países sul-americanos, estão transcritos, em
pormenores, em nossos anais, e podem afiançar o quanto tudo isso
contribuiu para o fim do conflito e, em especial, para que os prisioneiros
de guerra fossem tratados com mais generosidade.
Mas se falamos de lutas e conflitos, urge falar também dos momentos
sublimes de solidariedade continental. Cumpre pois lembrar a visita do General
Agustin Justo, Presidente da Argentina, ao Brasil, máxime porque,
naquela ocasião, foram firmados, no Rio de Janeiro, doze importantes
tratados, dentre os quais o Tratado Antibélico de Não Agressão
e Conciliação, que, pelo seu alto significado, suscitou do
companheiro Juan Albertotti as seguintes palavras: "Não há
mais barreiras, não há mais duas nações: somos
uma única nação." Releva enfatizar que S. Exa.,
o General Justo, a despeito de sua ocupadíssima agenda oficial, demostrou
especial apreço pêlos rotarianos, recebendo-os em audiência
no Palácio Guanabara. E é bom que se saiba que cinqüenta
de nossos companheiros participaram desse evento.
A memorável visita do General Justo é retribuída por
Getúlio Vargas em 1935, exatamente quando aquele país celebrava,
com grande pompa, em 25 de maio, mais um aniversário de sua independência.
O que houve ali, segundo palavras de Rodrigo Octavio, foram manifestações
populares nunca vistas anteriormente. Em determinado momento dos festejos,
em meio a discursos, parada militar e exibição de bandas marciais,
na Plaza de Mayo, inicia-se uma imensa revoada de pombos, que traziam ao
pescoço pares de fitinhas com as cores das duas grandes nações
irmãs, verdes e amarelas, e azuis e brancas. Nessa ocasião,
o povo foi ao delírio e as autoridades presentes, esquecendo-se por
instantes do protocolo, abraçavam-se e exultavam de alegria.
Foram tão fortes essas emoções e sinceros os sentimentos
que, em 1942, quando o Brasil declarou guerra aos países do eixo,
mantendo-se neutra a Argentina, aquele mesmo Agustin Justo apresenta-se
ao Governo do Brasil, como general honorário de nosso exército,
disposto e pronto para combater ao nosso lado.
Também experimentou o Brasil, nessa década, os seus próprios
conflitos e angústias. Em 1930, lamentamos a humilhação
de Júlio Prestes, ao receber, na Europa, a notícia da deposição
de Washington Luiz, exatamente quando era recebido pêlos maiores estadistas
do velho mundo, na qualidade de presidente eleito do Brasil.
Pouco depois, durante a Revolução Constitucionalista de 1932,
que "ceifou a mocidade cheia de esperança e a velhice plena
de experiência", não se limitaram os rotarianos a demostrar
o seu pesar pelo derramamento de sangue de tantos brasileiros, observando
momentos de silêncio no início de suas reuniões plenárias.
Na verdade, respondendo aos apelos dos rotarianos de outros estados, assim
como de Buenos-Aires, empreendeu o clube um notável trabalho de mobilização
de todas as forças vivas da nação, na busca de um honroso
entendimento que pudesse por fim à luta fratricida. E assim, representando
também toda a sociedade brasileira, dirigiu-se aos responsáveis
pela vida pública do país e aos constitucionalistas, em particular,
transmitindo-lhes apelos de paz e de concórdia. E sendo Ministro
Interino da Justiça o Dr.
Francisco Campo, rogou o clube a S. Exa. que permitisse ao serviço
oficial de rádio transmitir notícias relativas à saúde
entre as pessoas aqui residentes e seus familiares em São Paulo,
já que haviam sido cortadas todas as comunicações entre
as duas cidades. Esse pedido foi atendido em 24 horas, e em decorrência
das circunstâncias, graças ao trabalho de nosso clube, foi
possível levar-se um pouco de tranquilidade e de paz a centenas de
famílias.
Em 1935, o Almirante Álvaro Alberto, pai da energia nuclear no Brasil,
então presidente do clube, quebrando o protocolo e levando os rotarianos
às lágrimas, sacou de nossa panóplia o Pavilhão
Nacional, para desfraldá-lo, vibrante e demoradamente, sobre o plenário,
numa demonstração cívica de revolta e de dor pêlos
que, na véspera, haviam tombado vítimas da Intentona.
No terreno particular das cousas do Rotary, três importantes acontecimentos
marcaram a década. A Assembleia de Presidentes e Secretários
do Distrito 72, realizada em 1930; a viagem de Paul Harris ao Brasil em
1934; e a estadia entre nós de Maurice Duperrey em 1937, primeiro
presidente do Rotary International a visitar-nos.
A Assembleia de Presidente e Secretários, a primeira do género,
foi realizada no Rio de Janeiro nos dias 29 e 30 de agosto, inserida no
programa da 2- Assembleia Distrital do novo distrito, exclusivamente brasileiro,
já que, até então, partilhávamos com o Uruguai
e Argentina o antigo Distrito 63, alternando-se os países na indicação
do seu governador. Constituiu-se, na verdade, como disse Amarante, numa
reunião de executivos, onde não foram previstos eventos sociais.
Tratava-se de um fórum de trabalho, de aprendizagem e de treinamento,
já que dos doze clubes então existentes e ali representados
(o RC de Porto Alegre não pôde participar), somente os clubes
do Rio, de São Paulo e de Santos, tinham mais de três anos
de vida.
E porque era uma reunião de trabalho, os rotarianos de fora precisavam
conhecer a sistemática de funcionamento de uma sessão de conselho
diretor. Para isso, reuniram-se os participantes presentes, no Hotel Palace,
no dia 30 de agosto, às 12 horas, numa grande mesa de almoço,
cm torno de outra mesa onde estavam sentados os membros do Conselho Diretor
do clube anfitrião. Dizem os anais que os rotarianos visitantes testemunharam,
naquele dia, uma reunião modelar de conselheiros de uma unidade rotária.
Cumpre ressaltar, na oportunidade, que esse julgamento seria também
válido para os dias de hoje, pois o nosso clube, desde as suas origens,
vem sempre mantendo a tradição de promover duas reuniões
semanais em almoço, uma plenária e outra para seu Conselho
Diretor, o que lhe empresta a singularidade de ser, possivelmente, o único
clube no Brasil a fazê-lo.
A visita de Paul Harris e sua querida Jean ao Brasil pode ser considerada
como o mais importante acontecimento rotário experimentando pêlos
rotarianos daquela época, não somente porque estavam conhecendo,
de perto, o fundador de uma organização que, nascida despretensiosamente
numa cidade dos Estados-Unidos, logo se espalhava por todo o mundo, mas
sobretudo porque Paul e Jean eram de fato criaturas muito especiais. Sim,
Paul Harris era um homem notabilíssimo, um ser predestinado, de compleição
quase frágil, não muito alto, simples, caipira mesmo, cujos
olhos azuis, vivos e penetrantes, logo inspiravam a todos confiança
e entusiasmo, ao mesmo tempo em que irradiavam paz e tranquilidade.
Paul Harris, no Rio de Janeiro, foi recebido por rotarianos solícitos
e entusiasmados, entre eles os chamados de "batutas do Rotary",
a saber, Rodrigo Octavio, Jô Fernandes e Alberto Amarante, sem que
se possa esquecer a figura nobre e imponente de Augusto Niklaus, hoje, o
decano de nosso clube, com 62 anos de excelentes e ininterruptos serviços
prestados à nossa instituição.
Paul cumpriu uma pesada agenda no Rio de Janeiro, sendo recebido pelas mais
altas autoridades do país, inclusive por Getúlio Vargas, em
Petrópolis, mas não deixou de vivenciar a intimidade familiar
dos rotarianos que o acolheram. Assim, Jean e ele participaram da festa
de aniversário de Carmencita, filha de Niklaus, saborearam taças
de chá oferecidas por Jô e Suzie e, em Petrópolis, hospedados
por eles, lhes foi preparada uma autêntica feijoada brasileira.
Ao deixar o Brasil, proferiu Paul Harris sua mensagem de despedida através
do microfone do Departamento Nacional de Propaganda, na Hora Nacional, dizendo-se
altamente impressionado com a cidade de Santos, onde desembarcou, com seu
moderno porto pleno de navios carregados de mercadorias destinadas a todas
as partes do mundo, e com as terras altas do planalto paulista, onde as
plantações de café se estendiam por milhares de acres,
assegurando ao mundo um suprimento inexaurível do precioso líquido.
De São Paulo, disse-nos de sua surpresa ao constatar que, em pleno
coração do Brasil, erguia-se uma das mais modernas e industrializadas
cidades da época, muito mais racionalmente urbanizada e estruturada
do que a sua própria Chicago.
E do Rio, disse simplesmente maravilhas. Disse mais: "Jean e eu sabíamos,
por amigos, que iríamos veraqui uma das três mais belas cidades
do mundo. Mas eles estavam enganados. O Rio de Janeiro não é
absolutamente uma das três, mas a mais bela cidade da terra. Agora,
sim, podemos voltar felizes para os Estados-Unidos, Jean e eu, porque tivemos
a ventura de adorar a beleza suprema em seu próprio santuário."
A presença de Maurice Duperrey entre nós, em 9 de setembro
de 1937, foi o terceiro fato auspicioso de década. Chegando às
vésperas do Dia da Independência, Maurice foi homenageado pelo
Prefeito do Distrito Federal, Henrique Dodsworth, que o convidou a assistir,
da tribuna de honra, a Parada de 7 de setembro.
A menção à visita de Maurice Duperrey, faz-nos lembrar
o quanto o Rotary Club do Rio de Janeiro tem contribuído para ao
culto aos símbolos nacionais. Em 19 de novembro de 1925, nos primórdios
do Rotary em nossa terra, realizou o clube a sua primeira festa cívica
e o fez em comemoração ao Dia da Bandeira, para o que foram
convidadas altas autoridades e indicado, como orador, o eminente rotariano
Dr. Reynaldo Porchat, presidente do Rotary Club de São Paulo.
No que se refere à saudação que prestamos ao Pavilhão
Nacional, no início e término de todas as nossas reuniões,
constitui-se numa praxe iniciada em l929, por proposição de
nosso companheiro Jorge T. Wishart, estendida depois a todos os clubes de
Rotary do Brasil por recomendação da Ia. Conferência
Rotária do Distrito 63, parte brasileira. Em 9 de setembro de 1937,
para marcar a presença de Maurice Duperrey ao nosso clube, resolveu
o então presidente do clube, Ignácio Azevedo do Amaral, mandar
colocar, entre as bandeiras coloridas de nossa panóplia, um grande
mastro central, para que a nossa bandeira pudesse ser saudada, antes e depois
de todos os nosso trabalhos, ao ser içada e arriada, com maior pompa.
Essa prática foi enriquecida por Condorcet Rezende, em 1979, introduzindo
o içar e o arriar ao som do Hino à Bandeira. Também
não podemos esquecer que, sempre que se saúda as Nações
Unidas no seu dia, antes do início das reuniões, introduzimos
no plenário, sob palmas vibrantes, a bandeira do Brasil, seguida,
uma a uma, de todas as demais bandeiras nacionais de nossa panóplia.
E para terminar o relato da década, cientes de que muita cousa deixou
de ser dita, cumpre relembrar a aflição por que passaram os
rotarianos de todo o Brasil, em 18 de abril de 1938, com a assinatura, pelo
Presidente Vargas, do Decreto-lei 383, que proibia o funcionamento, no território
nacional, de sociedades, entidades, clubes, fundações e todo
e qualquer estabelecimento vinculado a organismos internacionais, que tivessem
entre seus objetivos a divulgação de ideologias políticas
ou que professassem ideias ou filosofias originárias em instituições
estrangeiras. Esse instrumento de lei abalou, fortemente, o movimento rotário
brasileiro e repercutiu além fronteiras. Alguns clubes suspenderam
suas sessões e muitos rotarianos se demitiram, especialmente aqueles
ligados a órgãos de governo. O nosso clube ressentiu-se profundamente
desse episódio, pois o próprio presidente e alguns diretores
tiveram que renunciar, o que nos obrigou a eleger novos membros para o Conselho
Diretor.
As dificuldades pareciam insuperáveis e, mais uma vez, o Clube do
Rio assumiu a missão de contornar a situação, já
que se encontrava bem mais perto dos governantes do país. José
Nascimento Brito, nosso governador, requereu uni prazo para que o Rotary
se adaptasse à nova situação, enquanto Jô, Rodrigo
Octavio e Amarante, os "três batutas", procuravam desesperadamente,
entre seus amigos do governo, fórmulas que os ajudassem a superar
o impasse. E ela foi obtida, sujeita todavia à aprovação
final de Rotary International, através de uma modificação
na redação de um dos artigos de nossos Estatutos, em que a
vinculaçào, por filiação, à Rotary International,
por sugestão de nosso grande amigo e sócio honorário
Francisco Negrão de Lima, transformou-se em vinculação
por cooperaçao. Há nos arquivos do clube, muito vem guardada
pela Comissão de Preservação da Memória do Rotary
Club do Rio de Janeiro, uma folha de papel muito antiga, rascunhada com
a letra do próprio Negrão de Lima, com as benfazejas sugestões
que salvaram o Rotary do Brasil. Felizmente, tanto o Ministro da Justiça
quanto o Rotary International entenderam que aquela modificação
semântica solucionaria definitivamente a questão. Essa relíquia
a que nos referimos acima, herança de Alberto Amarante, nos foi doada
pelo seu filho Flávio. Durante a década de trinta, o clube
teve a honra de ver uni dos seus mais destacados associados, o grande geólogo
Miguel Arrojado Lisboa, indicado para o cargo de governador do nosso distrito
72 e, já no ano seguinte, escolhido para membro da diretoria do Rotary
International, cargo dos quais desincumbiu-se tão bem, que voltou
a ser reeleito governador do nosso distrito. É pena que a morte o
tenha levado tão cedo, não podendo tomar novamente posse.
Na reunião seguinte ao seu passamento, os rotarianos deixaram a sua
cadeira vazia e, sobre ela, um bouquetáe. rosas, demostrando a nossa
tristeza e a nossa saudade. Foram ainda governadores, na década,
os nosso companheiros José do Nascimento Brito; e, depois da divisão
do distrito brasileiro em quatro outros distritos, José Manoel Fernandes,
este já do distrito 27, É oportuno que mencionemos, desde
já, os nossos governadores até o ano de 1960: António
B. Cavalcanti (1947-48); Paulo Dias Martins (1950-51); João Pedro
Thomaz Pereira (1952-53); Alberto Pires Amarante (1955-56) e Américo
Rodrigues Campello (1958-59). Américo, nosso rotariano mais antigo
logo depois de Niklaus, durante a sua governadoria, cunhou o lema que será
eternamente lembrado, por seu conteúdo filosófico e beleza
poética: Rotary. Um património a preservar. Um ideal a difundir.
Um presente a defrontar. E um futuro a construir.
Década de Quarenta
Os
anos quarenta e as notícias sobre a guerra na Europa eram cada vez
mais preocupantes. As invasões sucessivas de países amigos,
o fechamento de tantos e tantos clubes de Rotary, a guerra submarina, os
bombardeios aéreos, tudo enfim contribuía para tornar aquele
período o mais angustiante de tantos quanto vivemos. O conflito ainda
não nos havia atingindo, mas a onda de boatos no país, o medo
da quinta coluna, o blecaute em nossas cidades litorâneas, a construção
de abrigos anti-aéreos nos edifícios ainda não concluídos,
tornaram aqueles dias plenos de expectativas e inquietações.
Por fim, a notícia do torpedamento de navios mercantes brasileiros
em mares nordestinos abateu-se tão fortemente sobre todos, que os
rotarianos logo decidiram constituir uma comissão especial para levantar
fundos, com que se pudesse doar às Forças Armadas uma poderosa
arma de guerra, capaz de lavar a honra nacional. Grande foi a quantia arrecadada
e, ao final, sobrevindo a razão, resolveu a comissão que o
dinheiro deveria ser entregue ao recém-criado Ministério da
Aeronáutica para aquisição de um avião ambulância,
que seria usado para salvar vidas, de quaisquer dos lados, e não
para causar a morte ou a destruição. Os frutos daquela vitoriosa
campanha permitiram, não apenas a compra do "Ana Nery",
doado à FAB em outubro de 1943, como também a aquisição
de dois aviões de treinamento P-40, batizados com os nomes de "PRACINHA"
e "TENENTE MÁRCIO PINTO". Quando da solenidade de entrega
dessas duas aeronaves, em junho de 1945, presentes as mais destacadas autoridades
da FAB, rotarianos e familiares, o saudoso companheiro Norberto Pinto Júnior,
do Rotary Club de Juiz de Fora, em sua oração, reverenciando
a memória de todos os pracinhas que haviam derramado o seu sangue
em terras da Itália, desfraldando a bandeira da liberdade, dente
eles o Tenente Márcio Pinto do Exército Brasileiro, seu próprio
filho, dizia, sob forte emoção: "deixo aqui o meu agradecimento,
na esperança de que esse avião, em cuja carlinga está
gravado o nome do mais humilde soldado do Brasil, bem assim todos os demais
aviões da gloriosa Força Aérea Brasileira, não
sejam no futuro portadores do horror e da destruição, mas
os mensageiros da paz, da amizade e da confraternização entre
os povos da terra".
Eis que chega, para alegria de todos, naquele ano de 1945, considerado,
por muitos, o limiar da era tecnológica, mas também o ano
da paz e da esperança. E se havíamos participado, com o nosso
pequeno quinhão, do esforço de guerra, deveríamos,
sobretudo, ao renascer da paz, celebrá-la com honras e grandiosidade.
Para tal, o Rotary Club do Rio de Janeiro, sob a presidência do grande
líder e anfitrião que foi José Pacheco do Aragão,
pai do nosso companheiro Fernando Aragão, decidiu promover, no Teatro
Municipal, no dia 29 de junho, uma das mais belas cerimónias cívico-culturais
já realizadas em nossa cidade, não apenas pela presença
das mais seletas autoridades, como também pêlos grandes artistas
brasileiros que dela participaram, pelo alto significado histórico
que a inspirou e pela grande emoção que a todos envolvia.
Naquela ocasião, os vibrantes discursos de Aragão e Rodrigo
Octavio, os versos dos companheiros Bastos Tigre e Noraldino Lima, um saudando
os heróis que voltaram e o outro pranteando os que tombaram na luta,
logo no início da solenidade, já diziam da beleza do que estava
para ser apresentado naquele espetáculo tão bem cuidado.
Em seguida, a orquestra sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho,
executava árias de Carlos Gomes e, logo depois, a Ouverture 1812
de Tchaikowsky. Ouvia-se, a seguir, o canto mavioso de Gabriela Benzasoni
Lage com a Habanera da ópera Carmem de Bizet e o poema em homenagem
a Churchill recitado pelo académico Filinto de Almeida, que, num
certo trecho, dizia "Se há quem nele veja o homem que aferra
pela gorja o inimigo e o fere e o abate. Eu vejo muito mais - vejo a Inglaterra."
A plateia mal podia respirar de emoção. Eis que se ouve então
a voz de poetisa Stella Leonardos declamando versos entremeados de glória
e de dor, falando de Techeco-Slováquia, Polónia, Inglaterra,
Canadá, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Noruega,
Grécia, lugoslávia, Rússia, Estados-Unidos e Brasil.
E à medida que se referia a cada um desses países, no grande
palco, em cenários que se sucediam e se sobrepunham, com efeitos
visuais até então jamais vistos, senhoritas da sociedade carioca,
portando as bandeiras das nações, lembravam episódios
vividos e sofridos por cada uma delas durante o conflito. Tudo, enfim, contribuía
para "deixar a assistência, de um lado, em profundo êxtase
e, de outro, em indizível sobressalto com receio de que toda aquela
beleza fosse acabar".
De repente o Municipal fica às escuras. Logo depois os refletores
dirigem focos de luz em direção às duas alas laterais
da plateia, por onde entram, garbosos, em formatura de coluna, marinheiros,
aviadores, fuzileiros navais e soldados do Brasil, como que abraçando
os rotarianos e convidados, prestando-lhes continência.
Mas logo eles desaparecem, em novo jogo de luzes, para aparecerem finalmente,
sobre a ribalta, como guardas de honra do "Pantheon da Vitória",
formado pela bandeira de todas .;s nações aliadas, sob o domínio
da imagem da paz.
Esse o final "deslumbrante, feérico, indescritível,"
da Festa da Vitória. E é bom que sempre tenhamos em mente
as palavras proferidas por Rodrigo Octavio naquele dia: "Amigos! Cantemos
a Vitória! Lembremos Roosevelt, todavia. A estrutura da paz universal
não pode ser constituída por um só homem, por um só
partido ou por uma só nação. Não pode ser uma
paz americana, britânica, russa, francesa, ou chinesa. A paz exige
o respeito e a colaboração de todos os países do mundo."
E meditando hoje sobre o programa dessa grande festa, somos levados a crer
que a introdução de música de Tchaikowsky, retratando
a Batalha de Borodino, foi posta para que as gerações futuras
entendam que não vale a pena a porfia, pois o inimigo de ontem poderá
ser o grande amigo de hoje, como foram França e Rússia, em
1812 e em 1945, e assim como o Brasil e a Alemanha, em 1942 e em 1993.
Outro importante evento internacional de grande significado, coordenado,
também, por José Garcia Pacheco do Aragão, ocorreu
em nosso plenário em 1949, quando a bandeira da ONU foi entregue
ao presidente de nosso clube, em reunião solene do dia 21 de outubro,
para que tremulasse, pela vez primeira, em terras da América do Sul,
presentes o Marechal Eurico Dutra, Presidente da República, o Chanceler
do Brasil, Dr. Oswaldo Aranha, ministros de estado, corpo diplomático
e altas autoridades.
João Pedro Thomas Pereira, nosso então presidente, lembrando-se
ainda do talento insuperável de Stella Leonardos, saudando as nações
na Festa da Vitória, convida-a para que novamente viesse fulgente
emprestar ao Rotary o valor de sua poesia. E suas palavras naquela ocasião
ainda ressoam, magníficas, no ouvido de quantos tiveram a felicidade
de escutá-la: "Meus amigos. Deixai que eu vos fale (...) o mundo
sobrevive. O mundo que morria (...) ONU-laço de união. ONU-paz
coletiva. ONU-reconstrutora (...) Que entoes sempre o cântico de Hosana.
E que tornes feliz esta existência insana (...) Que todos sejam irmãos
sem que haja preconceito. Para que o fraco encontre apoio no Direito (...)
E que em vez de canhões surjam escolas e altares, estradas e hospitais
(...) Desfralda-te bandeira (...) Que possa o teu azul exprimir céu
e terra. Que possa o branco teu ser paz universal (...) Que sigas aclarando
o destino dos povos, apostilando o bem e libertando vidas. Por um mundo
melhor, a ti, Nações Unidas."
Querida Stella Leonardos, podes estar certa de que a força e o esplendor
de teus versos, tão carregados de humanismo e solidariedade, concebidos,
em teu coração, a pedidos de nós outros rotarianos,
engalanaram de tal sorte aquelas duas inolvidáveis festas, como o
fizerem em outras ocasiões, que podemos afirmar, contritos e sinceros,
que sem eles a História de nosso clube, em particular, e do rotarismo
no Brasil, seria bem menos rica.
A década de quarenta reserva-nos ainda mais surpresas. A realização
de uma Convenção International do mundo rotário em
nosso país, desejada pêlos rotarianos desde 1926, realiza-se,
finalmente, na cidade do Rio de Janeiro, nos dias 16 a 20 de maio de 1948,
congregando cerca de 8.300 rotarianos, dos quais 2330 de 35 diferentes países.
Tudo foi preparado com carinho e esmero e o programa se iniciou com o desfile
triunfal do Presidente do Rotary International, S. Kendrick Guernsey, e
sua esposa pelas ruas do centro da cidade, em carro aberto, sob o aplausos
vibrantes dos cariocas. A abertura solene da Convenção, no
Estádio do Fluminense, contou com a presença, mais uma vez,
do Marechal Eurico Dutra e do Prefeito Angelo Mendes de Morais, ambos merecedores
do respeito e da admiração dos rotarianos, pelo irrestrito
apoio que deram à Convenção, razão por que,
logo depois, foram proclamados sócios honorários do Rotary
Club do Rio de Janeiro.
Nos jardins e andar térreo do Edifício do Ministério
da Educação, no Castelo, na ocasião obra prima da arquitetura
moderna brasileira, foi instalada a FriendshipHouse(Casa da Amizade), local
tradicional, previsto em todas as convenções internacionais
do Rotary, destinado a acolher as esposas dos rotarianos, permitindo conhecerem-se
melhor, umas as outras, e usufruírem momentos de intenso companheirismo.
Ali, sentadas em mesinhas artisticamente postas, à sombra de guarda-sóis
protetores, deliciaram-se as de fofa saboreando iguarias típicas
da cozinha nacional, regadas a guaraná, sucos tropicais e água
de coco, ao mesmo tempo em que escutavam músicas brasileiras. Esse
evento viria a influenciar o nome que foi dado, mais tarde, às associações
filantrópicas criadas pelas esposas dos rotarianos do Brasil, que
as chamaram de Casas da Amizade.
Além da parte rotária propriamente dita, desenvolvida nos
Teatros Municipal e Fénix, uma para ouvintes de língua inglesa
e o outras de língua portuguesa, quando os assuntos de interesse
da instituição foram discutidos exaustivamente, todo um elenco
de festejos foi previsto para que se pudesse divulgar convenientemente as
cousas do Brasil. Cumpre lembrar que, naquele tempo, não havia, senão
o Touring Club que conosco sempre se associava para esse fim, órgãos
oficiais de promoção de turismo, o que valoriza ainda mais
o esforço do Rotary em mostrar aos visitantes toda a nossa beleza
tropical.
A Friendship Hotise, nos jardins do Ministério da Educação,
já mostrara a hospitalidade de nossa gente e a delícia da
cozinha brasileira. Era preciso, também, que eles vissem, mais de
perto, o encanto das noites cariocas na Baía de Guanabara. Para isso
foi concebida a Festa Veneziana.
E não houve quem se esquivasse de colaborar. Escolhido o local, a
enseada do Flamengo, ali fundearam, ao largo, navios da Marinha de Guerra,
embandeirados em arco. De dia as bandeiras coloridas de seus regimentos
de sinais demarcavam-lhes a forma; á noite, as luzes das gambiarras
ressaltavam ainda mais suas silhuetas. Ao longo do cais, sobre as calçadas,
a Prefeitura armou largas arquibancadas para que o povo do Rio de Janeiro
pudesse também participar do espetáculo. E a festa se inicia
com o desfile de lanchas e barcos pequenos, trazendo a bordo visitantes,
rotarianos e autoridades. Navegando na raia que fora balizada, entre os
navios iluminados e a amurada do Flamengo, sob o foco dos holofotes do Exército
dispostos nos extremos da praia, eram todos vibrantemente aplaudidos, pois
o esplendor era por demais contagiante. E, por fim, de bordo dos navios,
uma salva de fogos de artifício transforma aquela visão num
cenário de magia e sedução inesquecível, para
os da terra como para os visitantes d'além mar. Valdir da Rocha,
nosso sábio companheiro e sócio honorário, que ainda
guarda na memória a beleza daquela noite, nos diz sempre que a Festa
Veneziana foi realmente o evento que popularizou o Rotary em nossa cidade.
Os convencionais tiveram outros grandes momentos de convívio social:
a tarde no Jockey Clube; a recepção do Presidente Guernsey
no Palácio Guanabara; e o Garden-Party oferecido pelo Prefeito na
Gávea.
E como não podia faltar momentos de ternura e arte, embora, na Abertura
da Convenção, no Fluminense, já tivesse havido apresentação
cénica de passagens notáveis de nossa História, acompanhada
pelo concerto sinfónico da Orquestra do Teatro Municipal, sob a regência
do maestro Eleazar de Carvalho, promoveram ainda os rotarianos uma outra
surpresa, a chamada Noite Brasileira. Na Quinta da Boa Vista foi armado
um grande palco, para o que não faltaram os elementos da própria
natureza, inclusive uma ilhota dentre do lago. Quatro orquestras, dois grandes
conjuntos corais e 250 moças e rapazes de nossa sociedade encheram
aquela noite com números artístico e danças regionais
de rara beleza.
A Convenção do Rotary International no Rio de Janeiro foi
um evento grandioso, tanto sob o ponto de vista rotário, como pelo
aspecto de divulgação de nossas tradições, de
nossa cultura e da beleza da terra brasileira.
Mas as cousas do Rotary não são feitas tão somente
pêlos rotarianos. Também às suas esposas, que com eles
partilham do ideal rotário na atividade do dia-a-dia, devem ser creditadas
grandes realizações. Em nossa cidade, basta lembrar a maior
delas, a mais antiga e benemérita. Refiro-me ao SOS - Serviço
de Obras Sociais, fundado, em 11 de agosto de 1934, por inspiração
de um grupo das nobres Enfermeiras da Saúde Pública, lideradas
pela Sra. Edith Fraenkel. À Edith Fraenkel Z. da Fonseca, Clélia
Alevato, Lilian Sylvester e ao Dr. Olinto O. de Oliveira, logo se juntaram
Eugenia Hamann, Jerônyma Mesquita, Stella Guerra Duval, Ema Hamann
Negrão de Lima, Nanoca Dionísio Cerqueira, Leila Leonardo,
Laura Rodrigo Octavio Filho, Ivone Pires Amarente, Irene Murgel Braga, Suzane
M. Fernandes, Zulema de Castro Amado, Juracy Pacheco da Silva, Terezita
Porto da Silveira, Baronesa do Bonfim, Augusta Hoddock Lobo; e Edwin M.
Horgan, Juan Albertotti, Joaquim de Almeida Lustosa, Plínio Olinto
de Oliveira, José do Nascimento Brito, Rodrigo Octavio Filho, Gustavo
Lessa, Souza Figueiredo, Massillon Sabóia, Pinto Guedes, Jayme Praça,
Oscar da Silva Araújo, João Pacheco Moreira, Pedro Magalhães
Corrêa e António Ribeiro França Filho. Com essa plêiade
de criaturas de Deus, com esses anjos do céu, foi possível
tornar realidade o sonho das Enfermeiras da Saúde Pública
e melhor atender a uma vasta parcela da população carente
do Rio de Janeiro.
Desde a sua fundação, o SOS recebeu o apoio do Rotary Club
do Rio de Janeiro, nas pessoas dos rotarianos já citados e, ainda,
de Arthur Bastos, Wolf Klabin, Francisco Oliveira Passos, Galeno Gomes e
outros, que figuram, também, na lista dos grandes beneméritos
daquela instituição.
Na década de quarenta de que estamos tratando, fundou o SOS a sua
Associação tlê Escoteiros do Mar (1942), trabalhou em
auxílio das famílias dos brasileiros, civis e militares, vítimas
do torpedeamento de nossos navios em mares do nordeste (1942) e inaugurou
a Enfermaria Julius Weil na Vila SOS.
Hm 1952, com a fundação do Rotary Club de São Cristóvão,
o apoio ao SOS passou a ser dado pelo novo clube afilhado, não apenas
porque aquela instituição se localixa cm território
sob jurisdição do São Cristóvão, como,
também, e, sobretudo, porque entre os seus associados sempre houve
rotarianos altruístas e generosos como, agora, Seraphin Donato.
O SOS, que atende hoje, entre ovitras, nove comunidades faveladas de grande
densidade demográfica, é, certamente, para orgulho dos rotarianos
do Brasil, "a semente que se tornou árvore e o regato que se
tornou rio", como disse, certa vê/., o nosso decano Augusto Niklaus,
também benemérito.
H não foi apenas o SOS que as senhoras dos rotarianos doaram à
cidade do Rio de Janeiro, H preciso que recordemos, também, as Casas
da Amizade. A primeira delas foi fundada por um grupo de senhoras, lideradas
por Nair Valente, esposa de nosso saudoso companheiro Francisco Machado
Valente, e destinava-se, inicialmente, a congregar as esposas dos rotarianos
de nosso clube, para confecção de enxovais para gestantes
carentes e obras sociais de toda a sorte. Já, agora, sob a denominação
de Casa da Amizade da Família Rataria do Rio de Janeiro, reunindo
as esposas dos rotarianos de todo o município do Rio de Janeiro,
desenvolve, em ambiente de plena alegria e satisfação, um
notável trabalho filantrópico de apoio a centenas de asilos,
escolas e hospitais, doando enxovais, cobertores, instrumentos cirúrgicos,
alimentos etc., além de promover, todos os anos, no Natal, belíssimas
festas para as criancinhas asiladas de nossa cidade. O Rotary Club do Rio
de Janeiro continua apoiando a Casa da Amizade, tanto financeiramente, através
de contribuições das esposas de seus rotarianos, como também
alojando-a em suas instalações na Avenida Nilo Peçanha,
26,12B andar, no Rio de Janeiro.
Nilza Frias, esposa de nosso companheiro Fduardo Cropalato Frias, celebrando
o 42° aniversário da Casa da Ami/ade em 1990, na qualidade de
sua Presidente, falando de Nair Valente e daquelas abnegadas fundadoras,
comoveu por demais o plenário do nosso clube, ao recitar uni poema
de Helena Ferraz, que, em certo trecho, dizia: "Olhemos para a criança.
Preservemos o seu destino. Possui ninhos de esperança. Seu coração
pequenino. E olhemos principalmente a criancinha semi-nua, que sujinha e
indiferente anda jogada na rua."
A década de quarenta foi realmente muito rica em realizações
e não menos importante foi a doação da Escola Rotary
da Ilha do Governador à Prefeitura do Distrito Federal, com o que
se marcou, indelevelmente, o Jubileu de Prata do rotarismo no Brasil.
A Escola Rotary não foi construída em um dia, nem tampouco
em um ano. Entre a ideia inspiradora, surgida em 25 de novembro de 1927,
quando da 1a Convenção Rolaria Brasileira, dirigida a todos
os clubes então existentes, no sentido de que cada um deles viesse
a doar à sua cidade um estabelecimento de ensino primário,
e a sua concretização no Rio de Janeiro, em março de
1948, decorreram cerca de 20 anos. Quando a proposta foi apresentada em
1927, nosso saudoso companheiro Richard Monsen entregou ao Presidente Miranda
Jordão um cheque no valor de um conto de reis, com o qual se constituiu
um fundo especial para a obra pretendida. E a partir dai, a pouco e pouco,
novas contribuições foram surgindo, campanhas foram realizadas,
até que, amealhada a quantia de Cr$ 700.000,00, foi possível
construir e entregar, em maio de 1948, ao General Angelo Mendes de Morais,
Prefeito da Capital, a nossa querida Escola Rotary do Ilha do Governador.
Dizem os anais que o nosso então presidente, Waldemar Luz, estava
entregando à cidade, "em amplo terreno circundado de árvores
frondosas (...), com salas amplas, perfeitamente adaptadas ao fim a que
iriam se destinar, possuindo todos os requisitos modernos para estabelecimentos
congéneres e com acabamento perfeito" aquele estabelecimento
de ensino prometido em 1927. Em 1956 a Escola Rotary foi ampliada, também
pelo Rotary Club do Rio de Janeiro, e, desde então, vem o clube colaborando
com a sua manutenção, para o que conta com o inestimável
apoio dos clubes rotários da Ilha e, para gáudio nosso, dos
Fuzileiros Navais de nossa Marinha de Guerra.
No dia da entrega, simbolizando a amizade, foi plantado um exemplar de magnólia,
"em cuja sombra desejavam os rotarianos ver abrigadas as crianças,
que ali iriam ser moldadas no culto das virtudes, do amor à pátria
e do respeito à religião."
No que concerne à marcha do rotarismo no Brasil, há de se
mencionar o surgimento de outros clubes em nossa cidade, dentre mais de
uma centena criados por esse país a fora. Na crista dessa grande
onda, foram fundados, em 1949, o Rotary Club de Copacabana, dos saudosos
Paulo Bastos e Darcy, organizado pelo nosso companheiro Lowndes; e o Rotary
Club Tijuca, de Regalia e de Marino, o clube que já nasceu pronto.
Os dois outros afilhados, os Rotary Clubs de São Cristóvão
e Botafogo, que nos dariam Fritz Weber, Genival e Loja, somente apareceriam
em 1953 e 1955.
E para encerrar o relato da década, cumpre relembrar que, já
no início do período, o Brasil atingiria o vértice
da pirâmide do Rotary, com a posse de Armando de Arruda Pereira ao
cargo de Presidente de Rotary International.
Década de Cinquenta
Iniciou-se a década com honras e glória, pois tivemos a ventura
de receber, sob a presidência de Américo Campeio, a figura
eminente de André Maurois, o grande escritor e académico francês,
convidado especial do clube para saudar a França em sua data oficial.
E se falou sobre o Quatorzejuillet, evento maior da liberdade, em sua própria
língua, também em francês recebeu os agradecimentos
dos rotarianos, nas palavras de nosso companheiro Madureira de Pinho. Parecia
que estávamos na Casa de Machado de Assis.
Outro grande acontecimento, ocorrido sob a presidência de Américo
Campeio, foi a visita ao nosso clube do General Carlos Rômulo, representante
das Filipinas junto à ONU e presidente da 4-Assembléia Geral
das Nações Unidas. A ocasião exigia a presença
do Presidente da República, que se fez acompanhar por ministros de
Estado, magistrados, representantes do corpo diplomático, congressistas
e altas patentes militares. Escolhido o Teatro Municipal como local da solenidade,
programada para o dia 24 de outubro de 1950, são nomeados oradores
o nosso companheiro Assis Chateaubriand, diretor dos Diários Associados,
e Carlos Lu/, que viria a ser, pouco depois, Presidente da República.
Carlos Lu/ fala sobre a importância das Nações Unidas,
enquanto que Assis Chateaubriand enaltece ainda a atuação
do homenageado frente à 43 Assembleia que acabara de suceder e conclui:
"só me resta agora prestar uma homenagem a Senhora Carlos Rômulo,
também presente entre nós, e o farei chamando-a, carinhosa
e respeitosamente, de "Iracema do Pacífico". Disse-nos
certa vê/ Helena Aragão, esposa de Fernando Aragão e
filha de nosso saudoso Moraes Barros, que a Senhora Rômulo era uma
mulher extremamente formosa, o que explica aquele gentil galanteio de Chateaubriand.
Seguiu-se, como de praxe nas reuniões mais antigas de nosso clube,
uma hora de arte, quando foi apresentado o bailado Bodas de Aurora pelo
Corpo de Baile de Teatro Municipal, com música de Tchaikowsky, e,
por fim, a Apoteose às Nações Unidas, sincroni/ada
com o Hino ao Sol de Mascagni.
Fm março de 1951, Afonso Arinos de Melo Franco vem ao plenário
do Clube do Rio para falar sobre a Declaração Universal dos
Direitos do Homem, aprovada pela ONU em 10 de dezembro de 1948, documento
cuja elaboração contou com a "liderança vital
do Brasil, através da inteligência de Austregésilo de
Athayde", nas palavras do Presidente Jimmy Cárter. V. inúmeras
ve/es tivemos a honra de ter como orador do dia o próprio Austregésilo
para falar sobre os direitos universais, que se confundem com os ideais
cio Rotary.
Fm agosto desse mesmo ano, o Prefeito da cidade de São Paulo, Armando
de Arruda Pereira, e o Dr. João Carlos Vital, Prefeito da Capital
Federal, encontram-se em nosso plenário, por iniciativa do então
Presidente Sydney Muni/ Gregory, sendo ambos homenageados e saudados por
Carlos Luz.
Fim 16 de maio de 1953, cumprindo plano apresentando pelo companheiro Marcos
Carneiro de Mendonça, o Rotary Club do Rio de Janeiro, presidido
pelo Almirante Dodsworth Martins, promove, nas matas da Tijuca, a inauguração
do nosso primeiro Arboreto Kotário, onde foram plantados exemplares
da flora de países de todo o mundo.Ainda em 1953, no dia 15 de março,
Juscelino Kubitschek de Oliveira, então Governador da Minas Gerais,
é recebido com alegria e distinção em nosso clube,
convidado que fora para falar sobre "Fnergia e Transportes no Desenvolvimento
do Brasil". Suas palavras, que se tornaram realidade mais tarde quando
o país o teve como Supremo Magistrado, estão guardadas em
nossos anais para as gerações futuras.
Coordenado por Pacheco do Aragão e por iniciativa do Presidente Manoel
de Moraes Barros, o Jubileu de Ouro de Rotary foi celebrado em 23 de abril
de 1955, na Floresta da Tijuca, presentes o Presidente da República,
nosso companheiro Carlos Luz, autoridades e o corpo diplomático.
Para esse evento, que se chamou Festa da Confraternização
Universal, foram armados quiosques decorados com as cores dos 52 países
ali representados, onde os convidados eram recebido por senhoras e senhoritas
vestidas em trajes típicos.
Aberta a solenidade com o hasteamento das bandeiras nacionais, seguiu-se
o plantio de árvores de cada região do mundo, iniciando-se
com uma muda de ipê, plantada por Carlos Luz. Ao final do Garden-Party,
as senhoras e senhoritas deixaram os seus quiosques e brindaram os convidados
com danças folclóricas de cada país.
Outro evento que marcou época, aconteceu em 17 de agosto de 1956,
sendo o clube presidido por Álvaro Borgeth Teixeira. Em sessão
solene, com a presença do presidente do Rotary Club de São
Paul >, João Baptista de Figueredo, primo e homónimo do
futuro presidente do Brasil, foi prestada justa homenagem aos correspondentes
estrangeiros e representantes das agências internacionais de notícias.
Fm ambiente de muita camaradagem, confraternizaram-se rotarianos e jornalistas
da United Press, Time Magazine, Mac Graw Hill e CBS, N. Y. Times, I:rance
Soir, Nações Unidas e da Embaixada Britânica. O Rotary,
que teve entre os seus fundadores I lerbert Moses e, mais tarde, Assis Chateaubriand,
sempre demostrou especial carinho pela imprensa, tanto assim que, nos primeiros
anos, ás atas das reuniões e as palestras eram publicadas
em jornais do Rio de Janeiro.
No ano de 1956, na presidência de Ildefonso Lardosa, dois fatos merecem
destaque: a viagem da Árvore da Amizade e a Campanha Mantenha a Cidade
Limpa.
O primeiro foi de rara beleza. Conhecendo Ildefonso o Capitão-de-Fragata
Thoríbio Lopes, oficial de marinha de muito talento e cultura, embarcado
no Navio-Escola Duque de Caxias, que deveria zarpar para uma viagem ao exterior
com nova turma de guardas-marinha, conceberam os dois a feliz ideia de embarcar,
também, naquele vaso de guerra, uma muda de pau-ferro, árvore
nativa do Brasil, para ser exibida em todos os países que seriam
visitados.
C) plano foi aprovado e aquela plantinha, cuidadosamente entregue à
nossa Marinha, experimentou a sensação maior da internacionalidade.
Enfrentando ventos de todos os quadrantes, reverenciada, na palavras de
Rodrigo Octavio, "pelo respeito da brava Maruja Brasileira, que nela
contemplava um pedaço vivo do Brasil, singrou quase todos os mares:
o Atlântico Norte e Sul, o Mediterrâneo, o Tirreno, o Jónico,
o Egeu, o Mármora e o Nórdico. Com o Duque de Caxias fundeou
no Bósforo e avistou Constantinopla; atravessou os estreitos de Gibraltar,
Dardenelos, Messina, Sund, Kategat e Skagerrak; navegou pêlos rios
Elba, Mass, Tejo e Delaware; bordejou por praias e portos da França."
Finalmente, no dia 22 de março de 1957, sob os olhares atentos das
mais altas autoridades e embaixadores de 13 países, a árvore
viajante, já de volta ao Brasil, foi transplantada para um canteiro
que lhe fora preparado na praça Mauá e adubada com terras
da Alemanha, de Cuba, da Dinamarca, do Egito, dos Estados-Unidos, da França,
da Grécia, da Itália, da Noruega, de Porto-Rico, de Portugal,
da Suécia e da Turquia, que foram trazidas, em artísticas
urnas, de cada um dos países visitados.
Esse fato singular, de tão sublime significado, de que fomos nós
próprios testemunhas, assim como o nosso querido companheiro Hélio
Barata, ambos embarcados no Duque de Caxias, não teve todavia um
final feliz. Aquela árvore, chamada da Amizade, veio a ser inopinadamente
abatida, em nome do progresso, por ocasião da remodelação
da Praça Mauá para a passagem do Viaduto da Perimetral. Cousas
da civilização.
O segundo evento, que aconteceu em 23 de novembro de 1956, foi a Campanha
Kotary Club-Mantenba a Sua Cidade Limpa, promovida juntamente com os Rotary
Clubs de Copacabana, Tijuca e Botafogo. A primeira cesta, de um total de
cem adquiridas naquela ocasião, com o nome da campanha gravada em
placa a elas aposta, foi colocada pelo rotarianos na Rua do Passeio, em
solenidade que contou com a presença do Prefeito da cidade.
Destacaram-se, pelo trabalho de divulgação do evento, os nossos
companheiros Moraes Sarmento e Roberto Petis Fernandes, este, na época,
ainda membro do Rotary Club de Botafogo. Campanhas semelhantes foram realizadas
em 1960 e 1967.
Estamos agora no ano de 1958 e já há trinta e cinco anos vinham
os rotarianos do clube entendendo-se com gente de todos as nacionalidades,
raças e crenças, na busca da compreensão mundial. De
fato, os registros indicavam que presidentes, ministros, escritores, artistas,
cientistas, príncipes e heróis haviam sido convidados para
apresentar suas ideias e discuti-las em plenário, onde foram sempre
recebidos com muita fidalguia e a quem haviam sido prestadas justas homenagens.
Houvera sido um bom trabalho, exatamente o que Rotary desejava. Por certo
ninguém havia sido esquecido e, por isso, todos estavam muito felizes
naquele início de ano. Mas, de repente, dão-se conta de que
alguém não havia sido lembrado, alguém muito especial,
exatamente os donos da terra, os primeiros brasileiros, aqueles a quem hoje
chamamos de povos da floresta.
A falha precisava ser corrigida e disso encarregaram-se António França
Filho, presidente do clube, e o rotariano Emílio Lourenço
Filho.
E que tarde inesquecível. Na reunião de 3 de janeiro de 1958,
na mesa de honra, ao lado de França Filho, era anunciada pelo diretor
de Protocolo a presença do missionário Roberto Butler e, a
seguir, Tipé e Tirimissi, da tribo dos Xavantes, e Cotaria e Orrori,
da tribo dos Carajás, com suas indumentárias características
e com armas de caça e de guerra.
Sobre aquela reunião, nada precisa ser dito, senão o que está
registrado na ata dos trabalhos do dia, cuidadosamente guardada em nossos
arquivos: "convido agora para virem ao microfone os dois índios
carajás, que vivem na ilha do Bananal, à beira do rio Araguaia.
A ilha fica entre dois braços do rio Araguaia. Cotari e Orrori já
falam o português. Têm eles um sinal em círculo no rosto,
que constitui uma característica da tribo. A indumentária
que estão usando é a dos solteiros. A proteçào
que usam no pulso também serve para prender as setas. As cordas que
usam para prender a seta no momento do arremesso, jogam estas com violência
para o pulso. As outras cordas são mesmo enfeites. Como vêem,
tra/em eles parte de suas armas de guerra. Os carajás vivem com o
missionário Robert Butler no posto do rio das Mortes e já
estão cm contato com a civilização há vinte
anos. Cotaria e Orrori vão cantar para os companheiros alguma coisa
típica, em sua língua (...) (recebem aplausos e uma flâmula).
Agora, os dois xavantes Tipo e Tirimissi, que ainda não falam português.
O que apresentam de mais interessante é a cabeleira. Usam ossos de
tamanduá-bandeira para cortá-las em franja até as orelhas,
deixando a parte de trás caída sobre os ombros, l )sam nas
orelhas estes enfeites de madeira, à guisa de brincos. Também
arrancam as pestanas e a esta altura da vida não têm mais sinais
delas. Tirimissi tem 16 anos e Tipé 17. São fortes e robustos.
Com este pau, que chamam bordnna, defendem sua casa e conseguem carne para
o sustento, abatendo porcos do mato. Também têm cantos típicos.
Vão cantar também para os rotarianos." Mis, pois, o que
se passou naquele dia, nas palavras de Emílio Lourenço preservadas
na memória do"clube.
Uma reunião como essa não poderá ser repetida, pois
os índios de agora já não são mais tão
inocentes, utilizam-se de gravadores para comprometerem políticos
não muitos leais, e, ademais, já se tornaram latifundiários
de extensas glebas, que exploram com suas inteligências, máquinas
e aviões.
Hm 17 de janeiro de 1958, ainda sob a direção de França
Filho, foi o Arboreto Rotário, criado pelo clube na Floresta da Tijuca
em 1952, transferido para o Horto Florestal. O rèplantio foi também
realizado em bonita cerimónia, a que não faltaram autoridades,
vibrantes discursos e hasteamento de bandeiras nacionais. Mais uma vez,
fez-se presente a poetisa Stella Leonardos e seu talento, dizendo, entre
muitos versos: "As mãos não foram feitas para pedir.
Riram feitas{)(ira apertar outras mãos".
Quiseram os lados, entretanto, que o segundo Arboreto Rotário também
não se perpetuasse, pois, naquele mesmo sítio, anos depois,
foi erguido um edifício para alojar as instalações
do SF.RPRO.
Somente em 1990, no dia 13 de novembro, para celebrar o lançamento
da campanha Presertv o Planeta Terra de Rotary International, obteve o clube
uma nova área para o seu bosque rotário, graças ao
trabalho de Mauro Viegas junto ao Dr. Wanclerbilt Duarte de Barros, Superintendente
do Jardim Botânico. C) próprio Paulo Viriato presidiu a solenidade
e mudas de pau-brasil e outras espécies foram plantadas. A revista
7lie Rotariaii divulgou esse ato ecológico por todo mundo. No ano
seguinte, o Governador Francisco Parente, por sugestão de Mauro Viegas,
transferiu para todos os clubes do distrito 4570, especialmente para o Rotary
Club do Jardim Botânico, a responsabilidade pela guarda do arboreto,
colocando no local uma placa alusiva ao assunto.
Há que se falar agora em uma pessoa que já não está
mais conosco e que, de tanto faxer o bem, mereceu dos rotarianos e da comunidade
o nome de "Anjo do Banco de Sangue do Rio de J arteiro". Na presidência
de Antenor Rangel Filho, em ó de novembro de 1959, Irene Niklaus
foi homenageada, em plenária, por ocasião do lançamento
de uma nova campanha de doação de sangue promovida pelo clube.
V. referindo-se a Irene, que chamou também de "anjo animador",
escreveu certa vez Paulo Martins: "e porque esse gesto possui, na sua
humildade, uma indefinida belexa, é sempre a mulher que se empolga
nessa missão, cheia de desprendimento, plena de amor ao próximo".
Rotary recomenda que sempre rendamos homenagem àqueles que são
capaxes de atos de bravura ou momentos de sublime heroísmo, não
apenas como demonstração de honra ao mérito, mas para
que se dê realce ao lado bom e dignificante.:que o ser humano, criado
à imagem e semelhança de Deus, tem dentro de si.
K foi isso mesmo que fex o Rotary Club do Rio de Janeiro, em 11 de de/.embro
de 1959. Na plenária daquele dia, o presidente Antenor Rangel Filho
entregou ao menino Paulo Vianna, de apenas 10 anos de idade, a Medalha de
Relevantes Serviços à Comunidade, por haver salvo o seu amiguinho
Roberto, de 3 anos, que, sem que houvesse qualquer outra pessoa mais no
local, cairá no mar e se afogava, próximo ao cais de embarcações
de Iate Clube. Roberto é hoje o rotariano Roberto Simões,
do RC Jardim América, patrono do Projeto Fada Madrinha. E o seu pai,
o nosso Manoel Simões.
Os Dois Primeiros Anos da Década de Sessenta
Não se pode falar nesses anos, sem que se diga alguma cousa sobre
José Martins D'Alvarez e sobre António Rodrigues Tavares.
Ambos foram poetas, um porque de fato compunha versos e o outro pela bondade
que trazia aninhada no peito, bondade que cultivou com tal vigor que o induziu
a criar, pouco mais tarde, a Fundação dos Sócios do
Rotary Club do Rio de Janeiro. Quantos jovens brasileiros tiveram a grande
chance de suas vidas oferecida por Tavares, Alfredo Amaral Osório,
Augusto Bayan, Villemor do Amaral, Lowndes, João Pedro e tantos outros.
Quem duvidar pergunte ao companlleiro Jiosef Fainberg do Copacabana. Ou
pergunte ao Chafi.
Martins D'Alvarez criou um estilo próprio em sua presidência,
pois sempre que podia saudava os seus companheiros em versos, especialmente
no dia de seus aniversários.
Lendo hoje os boletins da época, verifica-se que, a partir de então,
Guilherme Levi se tornava, cada vez mais, o porta voz oficial do clube,
o diretor de protocolo para as grandes solenidades e o guardião maior
dos cânones do Rotary. E revelava-se, também, uma outra faceta
de sua personalidade, a de cantor e animador, integrante do R.C. da Alegria,
ao lado de Celso Macedo, Rachel, Schmitz, Nelly, Marieta, Varuca, Sarita,
Alfredo, Bianca, Murgel, Elza, Jorge, Lourdes, Regalia, Dhylla e outros.
Como é bom lembrar as buliçosas e alegres caravanas que, sob
a batuta de Celso Macedo, subiam a serra para homenagear, em Petrópolis,
o Clube de Tegethoíf, de Castellan e do saudoso e inesquecível
Caludionor de Souza Adão.
Quanta cousa mais aconteceu naqueles dois anos, mas limitemo-nos a tratar,
tão somente, de duas bonitas reuniões. Em 5 de junho de 1961,
Joracy Camargo, o grande teatrólogo brasileiro, ocupa a nossa tribuna
para falar sobre o teatro e a educação, assunto do interesse
maior dos rotarianos. E, semana depois, no dia 12, celebra o clube o Dia
das Mães, tendo-se como oradora nada menos que Margarida Lopes de
Almeida, que a todos empolga, com sua poderosa voz, declamando "Romancede
Cabiúna"'de Ribeiro Couto; "À Nossa Mãe"
de Afonso Lopes de Almeida, seu irmão; e "Poema da Maternidade"
de Eernando de Castro.
Considerações Finais
Encerra-se aqui a parte que me coube (desculpem-me se passo para a primeira
pessoa do singular) descrever da História mais antiga do Rotary Club
do Rio de Janeiro, ou seja, de suas quatro décadas primeiras. Não
é a Llistória do Clube, pois isso exigiria muito mais talento
e vários volumes de muitas páginas. Amarante, que escreveu
sobre o rotarismo no Brasil obra inigualável, não deu ao seu
livro o título de História, mas o de Contribuição
à História do Rotary no Brasil. Pois assim seja. O trabalho
que ora apresento é mais uma contribuição à
História do Clube do Rio, já que consegui apenas reproduzir
trechos, extratos, fragmentos enfim, da História gloriosa do primeiro
clube de serviço fundado no Brasil.
Vocês poderão, curiosos, perguntar se isso me deu muito trabalho.
E respondo como a pequena menina chinesa na fábula oriental. Certa
vez, uma chinesinha, de apenas oito anos, carregava nas costas, numa longa
jornada, o seu irmãozinho de dois anos. Vendo-a passar, já
aparentando muito cansaço, um sacerdote lhe perguntou: - Menininha,
essa criança às suas costas é pesada? - Não,
respondeu ela ternamente. É meu irmão.
De agora em diante, como numa prova de revezamento, passo o bastão
para Eernando Aragão, que percorrerá o caminho que falta para
chegar ao ano de 1993- E sei que ele se sairá muito melhor.
Intróito
Quando fomos incumbidos de dizer algo sobre as décadas que, através
de nosso clube, marcaram a presença de Rotary, a tarefa afigurou-se
bastente difícil, porque o Brasil, o Rio e Rotary, desde que nosso
clube foi fundado, têm tido para nós, sob nosso ideal de
Servir à Comunidade, o imenso carinho e empenho de cada um.
Assim, pinçar fatos marcantes, dentre tantos, sob as quase setenta
administrações, poderia à primeira vista parecer partidarismo,
mas lembremo-nos sempre de que tudo o que se faz e se fez, em nome de Rotary,
o foi - e o é - abdicando da pessoa em favor do ideal comum, onde
não cabem nem elogios nem invejas, mas somente a nobre emulação.
Logo, se muitos fatos relevantes deixaram de ser convenientemente destacados,
esqueça-se a vaidade não alimentanda de neles se ter colaborado
e tenha-se em mente que a glória interna do dever cumprido é
infinitamente maior do que o reconhecimento dos outros homens.
Na forma de direcionar o pensamento quanto ao que se passou, fizemo-lo menos
buscando efemérides e mais aquilo que mantém a roda dentada
girando e transferindo força e amor. É claro que, pelo tempo
decorrido, o árduo trabalho de formiga das comissões, emprestando
a R.I. o acrécimo aceleratório que dá a Rotary um sentido
humanista crescente e ilimitado, não poderia ser aqui descrito. Está
tudo, lá, nos boletins, semana após semana, mês após
mês, ano após ano, colhidos e catalogados por Fernando Reis,
à disposição dos consultores. Ainda, junto, há
gravações de próceres como Campello e Niklaus que,
prolongando o trabalho de Amarante, pintaram como modernos Tintorettos,
traçando e colorindo o que o Clube tem representando na comunidade
e para seus membros, lembrando-nos que no "Studio" de Tintoretto
estava escrito: "11 disegno de Michelangelo ed il coloritto de Tiziano".
Nosso trabalho foi como se sacudíssemos enorme e frondosa árvore
frutífera, pingue de dádivas, com algumas, ao acaso, vindo
cair em nossas mãos.
Olhando a história do clube, vemos quantos grandes companheiros se
foram, deixando pegadas a serem seguidas. É como
se estivéssemos em uma grande estrada e os que nos antecederam tivessem,
indelevelmente, deixado o sentido e direção do caminho a trilhar
em prol de um Rotary cada vez maior. Impossível, de uma forma sucinta,
abranger do passado todos feitos e fatos, nomes e datas. Assim, a par daqueles
que partiram, dos quais alguns aqui citados, e dos que formam nosso corpo
atuante, dos quais também uns poucos são ao acaso nomeados,
seja entendido que, como Rotary não morre, tampouco morrem os que
vivem na memória rolaria, mesmo aqui não citados.
Década de Sessenta
Frutos sumarentos e saborosos foram palestras e apresentações
como o discurso de Murgel saudando João Havelange, então presidente
da C.B.D., dizendo, entre outras coisas lapidares, que "o trabalho
do esporte é obra eminentemente rolaria". Havelange, respondendo,
afirmou que a solução definitiva para o problema financeiro
da C.B.D., para a Copa do Mundo de 62, nascera de uma palestra por ele proferida
no plenário do Clube, a qual desencadeou, em efeito cascala, conlribuições
para a C.B.D., das quais duas iniciais represenlaram 1/3 da demanda para
o evenlo.
Ainda, que gralo goslo naquele longínquo 62, ao tomarmos conhecimento
de ter o Ministério Público opinado favoravelmente a o Regislro
da Fundação dos Sócios do Rolary Clube do Rio de Janeho,
obra imorredoura do grande António Rodrigues Tavares, por quem, copiando
Camões, poderíamos dizer:
"- Não passes, caminhante!
- Quem me chama?
- U'a memória nova e nunca ouvida. De um que trocou finita e humana
vida Por divina, infinita e clara f ama."
E, ousando ao vate, por Tavares remendar, diríamos:
M f is, não por esta atraído! R sim, por muito ter amado,
O estudante desprovido /:' de outra forma dotado.
Ou, então, a tranquilidade e a satisfação que nos invadiu,
ainda em dezembro daquele ano, ao sabermos paga a última parcela
de nossa sede própria. Ideia plantada, regada e colhida por quem
estará sempre em espírito entre nós, João Pedro
Thomás Pereira. E, desde fevereiro daquele ano, a Secretaria lá
funciona, sempre com o Délio sem mãos a medir. Ao lado, na
mesma ocasião, proporcionávamos à Casa da Amizade,
sem nenhum ónus para ela, as acomodações de que desfruta
agora no abraço amigo aos outros clubes.
A cada ano se renova nossa profissão de fé na juventude, através
da Escola Kotary. Quantos companheiros se dedicaram e se dedicam com afinco
para que essa iniciativa evolua e frutifique sempre. Mas, ficou na lembrança,
mais bonito do que nunca, o que o Feio fez: - A festa da Primavera - dando
nova dimensão à Escola Rotary. Fia mostrou um Clube, irmanado
aos seus afilhados e à comunidade da Ilha do Governador, unissonamente
aplaudindo a iniciativa da Escola Rotary, criando o grupo de escoteiros
e bandeirantes Carlos Coimbra da Lu x, nosso pranteado companheiro, grande
brasileiro, e que, nem no dia de sua posse como Presidente da República,
deixou de comparecer ao plenário do Clube.
Mais uma vez ascendia ao cargo de Governador do Distrito um ilustre membro
do clube, Antenor Rangel, que deixou um rastro de alegria.
Fala-se hodiernamente em ecologia, mas foi no plenário, em novembro
de 63, que o Dr. Victor Abdennur Farah, presidente do antigo Conselho florestal
Federal, destacou uma política florestal baseada em dois princípios:
Utilizar e Preservar. E, lembrando Fdgard Teixeira Leite, fiéis a
esse principio, viemos fazendo-o até hoje. O Mauro Viegas que o diga,
porque ele o faz. F, mais, faz fazer.
Durante a presidência de Gilberto de Ulhóa Canto (63/64), que
tanto apoiou o trabalho da Fundação dos Sócios, a difícil
tarefa de implementação das Relações Profissionais
foi, através de palestras promovidas pelo R.C.R.J. no clube de Engenharia
a estudantes secundaristas, levada a cabo com sucesso.
Com Momsen, morria em 64 um pedaço do nascimento do Clube, mas surgia,
vigorosa e forte, pelo seu legado de ideias e financeiro, a possibilidade
de estudantes brasileiros terem bolsas de estudos de Direito Constitucional
na George Washington University. E, ainda naquele ano, despedia-se o plenário
das instalações do Automóvel Clube para, por dois anos,
se abrigar no Edifício Sul América, nas instalações
do Country Club ali existente, e depois, a partir de Julho de 66, vivenciar,
por longo tempo, a agradável permanência no Clube Ginástico
Português. Nesse ínterim, surgia o Interact da Associação
Cristã de Moços, obra fecunda de nosso clube, dando exemplo
aos jovens que iniciam a vida profissional do que é o espírito
rotário. Na busca dos fatos que marcaram o ano rotário de
65/66, constatamos, com pesar, estarem faltando na Secretaria os boletins
daquele período. Foi o período da presidência de Guilherme
Levy. O Rotary não poderá jamais esquecer a história
de Albarito, o garotinho boliviano que, tendo as mãos queimadas,
veio naquele ano, por intermédio do clube, ser tratado pelo Dr. Pitanguy.
Albarito permaneceu 17 meses no Rio, em casa de companheiros como o Manoel
Simões, e voltou posteriormente para finalizar sua recuperação.
A saga de Alberito terminaria com pleno sucesso em 73, quando seu pai, Herman
Guilart T., deu a nosso clube vivo testemunho de quanto era grato ao Rotary.
Voltando a 64/65 e àquele período, é consignável
que houve, como muitas antes e depois até hoje, tremenda enxurrada.
O então ex-companheiro e Governador do Rio, Francisco Negão
de Lima, para "pacificar os céus", restaurou o feriado
de 20 de Janeiro que havia sido abolido. Seria ocioso citar que o Rotary,
como em todas as ocasiões semelhantes, participou ativamente no fornecimento
de alimentos e agasalhos aos desprovidos da sorte pelo infausto acontecimento.
Mas, não se pode deixar de dizer que Rotary, antes, durante e para
sempre, esteve e estará presente na assistência à Comunidade.
Entre tantos oradores daqueles jornadas, cujo brilho, patriotismo e ensinamentos
emprestaram ao plenário o arrebatamento do Bem Servirá Comunidade,
seria impossível destacar um que fosse sobre os demais, porque o
plenário ouvindo, ponderando e debatendo, põe em prática
rotária aquilo que lhe foi oferecido em pérolas de saber,
dando a cada orador o valor merecido. Um plenário que soube ouvir
o grande, não, o enorme Eugênio Gudim proferir em 67, com modéstia
igual ao seu saber, em sua palestra sobre Comércio Internacional
e Desenvolvimento Económico: "Se eu pudesse dar um conselho
aos amigos rotarianos, isto é, separa isso tivesse autoridade, eu
lhes recomendaria que, no seu propósito de auxiliar o desenvolvimento
económico e melhorar o bem estar das populações brasileiras,
combatessem o espírito mercantilista e o espírito de nacionalismo
exagerado". O plenário, ouvindo e ponderando, vem nessa linha
se mantendo e ajudando a forjar, pela prática, um Brasil mais aberto
e menos xenófobo.
A árvore plantada por Mansen e Edmundo de Miranda Jordão,
então o rotariano número um do Brasil, teve com o passamento
deste em 67 seu segundo abalo emocional, tão bem expresso pelo sempre
jovem Antenor Rangel que, não mais se encontrando entre nós,
deixou entretanto memória perene de seu vibrante rotarismo, tonitroante
na voz e manso de coração.
Quando vemos o estado atual de limpeza da cidade, custa lembrar que em 67,
quando o Rio era menor, o Clube encetou uma campanha de limpeza da cidade,
aplaudida pela antigo D.L.U., e que deu magníficos resultados. Várias
vezes temos retomado a ideia, mas esse esforço permanente deve partir
de cada cidadão, porque uma coisa acumulada, que causa repulsa, é
o lixo, seja na sua forma física ou na moral.
Ética - Um Principio Que Não Pode Ter Fim, frase maravilhosa
cunhada por Aroldo Araújo, marcará para sempre a gestão
do Tiburcio em 89/90, entretanto, falando de Ética, é justo
lembrar Alfredo do Amaral Osório, embora Alfredo deva, não
só por isso mas por muito, muito mais, ser lembrado. Alfredo, que
presidiu o clube em 66/67, fez redigir, com a colaboração
de Rangel e outros, um notável manual de Moral e Civismo distribuído,
com o nome "O Seu Mundo ...e o dos Outros", entre os estudantes
do então Estado da Guanabara, marcando a presença de Rotary
e da Ética junto à juventude. Obra reeditada posteriormente
pela sua grande valia. Através do atual trabalho da Comissão
de Ética, onde Daniel Sydenstricker empunha a batuta que Tiburcio
levantou e faz distribuir nos colégios um folheto sobre Ética,
vemos que esse trabalho não tem mesmo fim.
Foi em Junho de 67 que se deu o grande passo para admissão no nosso
convívio dos representantes das religiões, naquela ocasião,
D. José de Castro Pinto, Bispo titular de Hierapolis, o Reverendo
Zaqueu Ribeiro e o Grão Rabino Dr. Henrique Lemle. Respectivamente,
Catolicismo, Protestantismo e Judaísmo juntaram-se a nós.
A iniciativa que veio preencher uma lacuna de magna significação,
partiu do Guilherme Levy, de quem o sempre lembrado Jorge Pereira dizia
ter um microfone na garganta. Ao que podemos ajuntar, depois de ter sido
o Diretor de Protocolo, vem ao longo desse tempo todo, apesar de ter sido
Presidente, sendo o único a quebrar constumeiramente todos os anos
o nosso protocolo, dizendo-se, ao seu favor, que o faz com rara felicidade,
deixando o plenário em estado de graça. Dado que Levy, a cada
despedida de presidente e diretoria, rompe o protocolo, pergunta-se se isso
não poderia para o futuro ser incluído no mesmo, mas talvez
não tivesse tanta graça. A verdade é que os novos frequentadores
do restaurante do Clube Comercial, a cada despedida anual no andar de cima,
perguntam: - É trovoada? Ao que os antigos respondem: - Não!
É o Rotary.
E naqueles dias, nosso Clube, tão distinguido por R.I., mais uma
vez teve a honra de uma distinção através de Américo
Campello, com sua escolha como Agente Fiscal para o Brasil, emprestando
assim ao nosso sócio número dois mais um galardão rotário.
Campello, que trilhou todos os caminhos do Rotary no Brasil, e muitos de
Evanston, é, junto com Augusto Niklaus, o número um, a memória
e o exemplo a serem copiados.
Em 68, a Comissão de Relações Internacionais lançou
no Clube o Programa de Intercâmbio de Jovens. Essa ideia, tão
bem trazida até hoje, é um dos motivos de orgulho e vontade
de fazer mais e melhor. Naquele ano, pelo motivo do centenário de
nascimento de Paul Harris, por iniciativa do clube e alegria de Guilherme
Levy, o maior colecionador de selos de Rotary, emitia o Governo um selo
comemorativo.
Década de Setenta
Em 70, mal havíamos alcançado o tri-campeonato mundial de
futebol, magnificamente relatado no plenário por João Correia
da Costa, ex-presidente e ex-companheiro de nosso clube, porém verdadeiro
rotariano de coração, desencadeou-se campanha internacional
denegrindo a imagem do Brasil. Estávamos sob a presidência
de Hermano Villemor do Amaral, o qual, com sua habitual serenidade e firmeza,
fez publicar no nosso boletim, em várias línguas, entre elas
inglês, francês, e alemão, o repúdio às
inverdades que se propalavam. Aos clubes co-afiliados foi enviada missiva,
alertando-os do que se tramava contra a reputação de nossa
Pátria e, aqui e no estrangeiro, se desfez a calúnia e a desinformação.
Em 70, dava nossa árvore mais um vigoroso arbusto, pois o R.C. do
Rio Comprido já nasceu grande e que logo cresceu mais ainda, deitando
hoje sua sombra de benesses no território herdado, fazendo com que
seja emulado por muitos R.C.
Desde 70, o sempre lembrado Jorge Pereira e Luis Murgel começaram
o trabalho precursor de comemoração do cincoentenário
de Rotary no Brasil, a ocorrer dois anos após. Um dos pontos altos
dos trabalhos da Comissão Organizadora foi a campanha de doação
de Bolsas de Estudo, por grupos de 25 rotarianos, o que redundaria em cerda
de 1.000 Bolsas em todo o país. A nobre iniciativa, vinda de quem
sempre estará presente em nossos corações, Sizinio
Rodrigues, alcançaria pleno sucesso. Sizinio, então Governador
Escolhido, conseguiu motivar a todos os clubes para levarem mais essa bandeira
em prol da educação dos jovens. Além disso, ainda eram
objetivos colunados pela Comissão a publicação da História
de Rotary no Brasil e a emissão de um selo postal comemorativo do
evento. A feliz ideia do selo do cinquentenário, tida e levada a
efeito por Guilherme Levy, que soube motivar ao então presidente
da EMBRATEL Haroldo de Matos, foi, como era de se esperar, um sucesso no
mundo filatélico. Além do mais, acabou trazendo para o nosso
convívio o futuro Ministro Haroldo de Matos, de cuja companhia e
serviços ao Rotary muito nos orgulhamos.
A 15 de Dezembro de 1972 comemorou-se o cinquentenário da instalação
do nosso Rotary, embora ainda não afiliado a R.L. O então
presidente Jorge Pereira foi objeto de inúmeras manifestações
de carinho ao clube, destacando-se entre elas a do então Governador
do Estado da Guanabara, Chagas Freitas. O Governador do Distrito, nosso
Sizinio, disse naquela data, em memorável pronunciamento, ser o futuro
incerto, citando Victor Hugo, que o comparara ao pássaro apenas pousado
nos nosso telhados. E aqui repetimos suas palavras: ".. .Mas uma coisa
podemos fazer: é trabalhar, é esfoi ar-nospara que esse futuro,
guardadas as contingências que lhe s <o próprias, seja muito
maior muito mais glorioso que o passado".
Cremos que Sizinio nos vê agora, prosseguindo no futuro daqueles dias,
maiores e mais do que nunca servindo ao Brasil, portanto cumprindo o seu
desejo.
A 20 de Janeiro de 73, no salão de convenções do hotel
Glória, concretizava-se um sonho, o lançamento do livro de
Amarante "Contribuição à História do Rotary
no Brasil", para, no dia seguinte, em uma noite de confraternização
interclubes, continuarem os festejos. A comemoração do cinquentenário
teria sua "grand finale" na sessão solene do Encontro Nacional
no Teatro Municipal, a 20 de Março, quando a Orquestra Sinfónica
Nacional brindou aos rotarianos de todo o Brasil, e aos seus convidados,
com perfeitas execuções. Naquela ocasião, o coronel
Otávio Costa, representando o General Mediei, então Presidente
do Brasil, dirigiu palavras de estímulo e elogio à ação
rolaria. O nosso atual sócio honorário, o querido Imbassahy
de Mello, que seria merecidamente presidente de R.I. em 76/77, discursou
com sua peculiar lhaneza e brilho, saudando o Presidente de R.I., Roy D.
Hickman, que prestigiava ao Rotary brasileiro com sua presença. Este,
agradecendo em belas palavras cheias de carinho e afeto, ofertou ao nosso
clube, por ser o primeiro Rotary no país, uma placa comemorativa
do Jubileu de Ouro. Ainda, como comemoração do Jubileu de
Ouro, fez o R.C. do Rio de Janeiro cunhar medalhas que foram ofertadas a
várias personalidades, sendo de se destacar Henry Herman Lichtwardt
nos Estados Unidos e Robert Shalders em São Paulo, sócios
fundadores do Rotary Clube do Rio de Janeiro.
A 21 de Março de 73, para o encerramento do grande Encontro, em tocante
cerimónia aos mortos da segunda guerra, Luiz Murgel rendeu homenagem
àqueles heróis. Presentes ao momento solene, estiveram rotarianos
de todo o país, sendo notável a comitiva do Rio Grande do
Sul, chefiada pelo companheiro Walter Koch diretor de R.I., e que representaria
Roy Hickman na nossa XLIV Conferência Distrital. À noite, no
Canecão, houve em animado ambiente de descontração,
o derradeiro adeus aos que partiram nos dias seguintes.
Finalmente, a 26 de Março, o Presidente Mediei, pelo Decreto 71.990
declarou a Fundação dos Sc' ios do Rotary Club do Rio de Janeiro
de Utilidade Pública. Para i- ;o, n.uito contribuiu o esforço
pessoal do hoje companheiro Céli > Borja, deputado na época,
o qual, ao agradecer às palavras de Jorge l reira, então presidente,
minimizou sua participação, engrandecendo ios companheiros
Augusto Bayan, António Ceppas e Elias Nassif. Escusado era engrandecê-los
mais, pois sabíamos o que os três haviam feito pela Fundação,
especialmente Augusto Bayan, que segurou firme o leme frente a várias
tormentas e soube sempre, como verdadeiro comandante, levar o navio ao seu
destino.
74 foi um ano de gratas recordações. Presidia o Clube Washington
Lobo, e foi com grande satisfação que o plenário ouviu
o presidente dizer que o Secretário Geral de R.I. informara ter nosso
companheiro Alberto Pires Amarante sido indicado para o cargo de diretor
de R.I. para a 4a. Zona da Ibero-América, para o biénio 75-77.
Logo a seguir, comunicava Washington que Américo Campello, ex-governador
e agente financeiro de R.I., fora convidado pelo presidente indicado de
R.I. 75/76, o querido Ernesto Imbassahy de Mello, para a assessorá-lo.
De uma feita, teria o R.I. três brasileiros ilustres em Evanston,
sendo dois do clube do Rio, enquanto que, quanto a Imbassahy, sempre presente
nos nossos magnos eventos, não fora o Protocolo lembrar, a custo
acreditaríamos que era membro do R.C.R.J. de Niterói e não
do nosso Clube. Essa última questão seria sanada em Julho
de 76, ao Imbassahy se tornar sócio honorário do clube do
Rio.
A 9 de Abril de 75 quis o clube, em sessão solene do plenário,
homenagear o segundo brasileiro a ocupar o cargo de serviço máximo
em Rotary - o de presidente de R.I.. Na memorável reunião,
à qual se solidarizaram com caravanas todos os clubes da antiga Guanabara,
abrilhantada ainda por representações de Niterói; Belém
- PA; Campos; Cruz-Alta - RS; Duque de Caxias; Nova-Iguaçú,
Nova-Iguaçú Leste; Niterói Norte; Pádua; Petrópolis
Sul; Recife; Recife Boa-Vista; São Paulo Sul e Teresópolis,
foi lançada a Campanha Nacional pelo Menor Abandonado. Foi assim
o R.C.R.J. o palco inicial da meta do presidente de R.I. para àquela
gestão. Com a entrega, por Washington Lobo a Imbassahy, da bandeira
brasileira, pedindo para que com ela visitasse todos os clubes do mundo,
houve um momento de fortíssimo emoção ao ser desfraldado
o nosso pendão pelo futuro presidente de R.I. que, ao mesmo tempo,
prometia assim o fazer.
O ano rotário de 75/76 começou de forma auspiciosa no que
respeitava a campanhas. A Comissão de Interesses da Comunidade, no
período anterior, sob o impulso de Mauro Viegas e preocupada com
os efeitos trágicos da incúria que conduziu às tragédias
dos edifícios Joelma e Andraus, elaborara um folheto com o título
"Não deixe que isto aconteça por sua culpa" e a
que foi a peça chave d d Campanha Educacional de Prevenção
Contra Incêndios. Feitos mais de 100.000 exemplares como patrocínio
de Morrison-Knudsen Engenharia e do Grupo Atlântica Boa Vista de Seguros,
foi a campanha desenvolvida nos mais diversos setores, alcançando
ampla repercussão. Aquela comissão se dividira, na gestão
de Paulo Willemsens, em duas sub-comissões: "Pelo Menor - Pelo
Futuro do Brasil" com Murgel à frente, e de "Defesa do
Meio Ambiente", sob a orientação de Edgard Teixeira Leite,
esteio inesquecível da ecologia no nosso Clube. Ela, a comissão,
teria um vasto programa a cumprir e só veria seu trabalho materializado
nos anos seguintes, através dos resultados alcançados pelo
empenho de seus membros.
Cabe mencionar ainda que o sempre lembrado Sizinio Rodrigues, naquele ano,
era indicado para servir na Comissão de Estatutos e Regimento Interno
de R.I.. Aliando sua vasta experiência de vida, profissional e rolaria,
contribuiu Sizinio para que se aprimorassem as diretrizes de Rotary no mundo.
Mais tarde, Sizinio, que já havia salvo o clube durante o "Estado
Novo" de uma voragem jurídico-sectarista, viria, junto com outro
eminente jurista do R.C.R.J., como Gilberto de Ulhôa Canto, ex-companheiro
mas sempre rotariano de coração, e Alfredo Osório,
grande conhecedor do Clube, promover uma atualização daqueles
documentos básicos do Clube do Rio.
Como tantas velas que se extinguem, vimos também a esse tempo apagar-se
o nobre e generoso clarão de Fábio Bastos. Mas, se um soldado
do "bem servir para o bem comum" cai, outros muitos vêm
preencher a brecha na muralha rotária. E, assim, engajava-se o clube
do Rio no mote de Imbassahy - "Pelo Menor - Pelo Futuro do Brasil",
bandeira essa que vem sendo empunhada, não só pelo clube do
Rio mas pela plêiade de clubes do Distrito. Mudam os dizeres, mudam
os porta-bandeiras,